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Qual a essência da linguagem humana?

“A linguagem fez-se para que nos sirvamos dela, não para que a sirvamos a ela.”  Fernando Pessoa

No final do século XIX, o latinista que inspirou muitos linguistas, Antônio de Castro Lopes decidiu que investiria contra o surgimento e aplicação das palavras de origem francesa e inglesa em nosso vocabulário. Segundo ele, patriota que era, essas palavras contaminavam a língua portuguesa. Então o professor Castro Lopes inventou palavras à partir de uma etimologia retirada totalmente do português e as compilou no livro Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis.

Como por exemplo a palavra “Cinesíforo” que foi inventada para substituir “chofer” do francês “chauffer”, ou “Alvissareiro” que deveria substituir “repórter”, anglicismo proveniente do inglês “to report” que por sua vez vem do latim “repotare” que significava a ideia de uma notícia levada ao repórter para ser levada novamente ao público. Os repórteres hoje agradecem a palavra “alvissareiro” não ter caído no gosto do falante brasileiro, assim como “ludâmbulos” que seriam “turistas”. Claro que outras criadas por ele fazemos uso até hoje, como “estreia” ou “cardápio”

Mas o interessante nesse processo é observar como a linguagem está intimamente ligada a nossa condição de ser vivo. A vida das pessoas está associada ao processo de comunicação e aprimoramento da capacidade comunicativa que acompanha a própria evolução humana. À medida que amplia seu relacionamento com o mundo, o ser humano aperfeiçoa e multiplica a capacidade de comunicação, envolvendo palavras, sons e imagens. Textos verbais e não-verbais interagem e contribuem para a representação oral e escrita das sociedades.

A língua é um código desenvolvido para a transmissão de pensamentos, ideias e interação entre os indivíduos. Dessa forma, a língua pertence a todos os membros de uma comunidade e a nenhum deles isoladamente. Assim, como a língua é um código aceito, convencionalmente, por toda uma comunidade, um único indivíduo não é capaz de criá-la ou modificá-la. Em razão dos costumes, das gerações, de processos políticos, dos avanços sociais e tecnológicos, uma língua evolui, transformando-se historicamente. Por exemplo, algumas palavras perdem ou ganham fonemas, outras deixam de ser utilizadas, novas palavras surgem, de acordo com as necessidades, sem contar os “empréstimos” de outras línguas com as quais uma dada comunidade mantém contato.

Então, a língua constitui, pois, um código mutável que integra as relações humanas e que, ao mesmo tempo em que sofre modificações, participa das mudanças nas sociedades. Esse patrimônio social é responsável pela possibilidade de se preservar o conhecimento e de transmiti-lo à outras gerações no correr do tempo. É por meio da linguagem que as sociedades perpetuam suas histórias escritas. Sem a linguagem o mundo seria um imenso vazio.

Observa-se, também, a partir desse ponto de vista, uma relação bem próxima entre linguagem e cultura. Uma é expressão da outra. Essas duas entidades possuem uma relação tão ampla e complexa, que abrange desde a consideração de que as estruturas linguísticas possam se edificar, a partir de uma situação cultural, até a afirmação, em sentido contrário, de que os costumes linguísticos, de determinados grupos, tenham moldado, fundamentalmente, a cultura desses povos. Ou seja, a linguagem modifica a cultura e essa modifica aquela.

No entanto, sendo o ser humano portador da linguagem, ele não é dela possuidor, apenas usuário. E, no uso, modifica a língua, mas não a detém para si como algo seu. Isso acontece porque a língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste às pessoas. Não se pode, em qualquer sentido simples, ser autor. Falar uma língua não significa apenas expressar os pensamentos mais interiores e originais, significa, também, ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos no sistema cultural de dada comunidade, sociedade.

Essa relação intrínseca entre língua, cultura, sociedade, constitui arranjo fundamental nas atividades cotidianas de nossas vidas. Dessa forma, as mudanças ocorrem, tanto na cultura quanto na língua, seja por eliminação, acréscimo ou modificação de elementos. Não é uma coisa voluntária, acontece sem que se perceba, de forma ininterrupta. Assim, as pessoas reestruturam aspectos linguísticos e valores morais, por exemplo, muitas vezes, sem perceber. Mas, para tristeza de muitos, ninguém, isoladamente, modifica uma língua. Ela pertence ao conjunto de falantes e responde por seus comportamentos sociais, culturais, morais, éticos.

Compreende-se, então, que a linguagem é a principal concepção do ser humano (ser falante) representa para si o mundo por meio da linguagem e, assim sendo, a função da língua é representar/refletir seu pensamento e seu conhecimento de mundo. A interação entre palavras de diferentes origens é importante para a construção social de um povo.

Finalmente, naquilo que diz respeito à sua essência, línguas são fenômenos inerentes ao ser humano e semelhantes a ele próprio: sistemáticos, porém complexos, arbitrários, irregulares, mostrando um acentuado grau de tolerância a variações, repletos de ambiguidades, em constante evolução aleatória e incontrolável. Por isso a linguagem é espelho fidedigno das pessoas. É como diz Fernão de Oliveira (1536), “cada um fala como quem é”.

Pura verdade aos olhos linguísticos. É pelo falar que localizamos a origem, as influencias, os gostos, os sentimentos e desenvolvemos relações sociais. Não existe ainda a tão buscada, por alguns cientistas, linguagem universal como um código único que representaria um universo de significados independente da região, país ou universo. Utopia! A beleza da linguagem é exatamente o diferente. No universo do linguista cada código um desafio e cada aprendizado uma vitória.

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Dra. em linguística – Zulemay Ramos
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